Adeus Nokia e obrigado pelos peixes

nokia

Quando ganhei meu primeiro computador “de verdade”, o ZX Spectrum um mundo novo se abriu. Passamos por muitas aventuras, eu revirei o bichinho do avesso, fuçando, aprendendo. O Spectrum me inspirou a mandar meu primeiro texto para uma revista, a Micro Sistemas, e para minha surpresa, foi aprovado. Claro, não peguei ninguém por isso, acho que uma crônica em uma revista de informática não era tão sexy quanto hoje em dia.

O Spectrum morreu, veio o MSX, mas era fruto de um comitê. Não havia alegria real nele. Um dia surgiu o Amiga, e ele tinha alma. Não tinha nada da tecnologia do ZX Spectrum nele, mas o espírito era o mesmo. Depois dele nenhum computador depois disso conseguiu ser tão… pessoal. Na verdade quase nenhum gadget, com exceção dos celulares. Neste post aqui listei meus vários aparelhos, cada um trazendo lembranças, boas e ruins. Principalmente boas. Muitos desses aparelhos eram Nokia, o que me fez perceber o quanto a empresa japonesa mais famosa da Finlândia era parte da minha História.

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Foram décadas de erros e acertos, noites viradas em claro fuçando na Internet por Código-Morse por atualizações de firmware e programas para Symbian. Pérolas como o Gravity, um maravilhoso cliente Twitter, leitores de PDF no Nokia 6600 que me distraíram em intermináveis horas em viagens de ônibus pelo Brasil.

Foi muito legal ver os celulares saírem da idade do Adamantium (com o bom e velho 3320), evoluindo e se tornando poderosos terminais de comunicação multimídia, mais poderosos que tudo que a ficção científica havia imaginado, mas foi triste ver a Nokia perdida, passando pelo mesmo que a Palm passou, achando que sua posição no alto da montanha era inexpugnável. Nunca ouviram falar de Massada.

Vimos a Nokia lançar o conceito de smartphone, produzir alguns dos melhores de todos os tempos, mas se tornar prisioneira de si mesma. O Symbian era um Fusca. Havia um limite até onde poderia ser atualizado, e só tarde demais perceberam que as alternativas estavam cruas demais. A empresa fundada dois Séculos atrás por Eduard Polón havia perdido o trem da História.

A salvação veio com a Microsoft, oferecendo o Windows Phone como uma alternativa essencialmente exclusiva, pois o nome e a penetração (ui!) de mercado da Nokia a tornariam sinônimo do novo sistema. Foi a aposta mais alta da empresa, muita gente foi contra, inclusive o pessoal do hilário Plano B. No final, deu tudo certo.

Sim, a Microsoft comprou a Divisão de Dispositivos da Nokia, por US$ 7,2 bilhões. Sim, a transação foi confirmada e completada. Sim, a Nokia vai passar a se chamar Microsoft Mobile, e para muitos é o fim de uma era. Como eu posso chamar isso de vitória?

Por causa disto:

 

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 A Nokia hoje representa 90% do mercado de Windows Phone, e a adoção do Windows Phone estancou o sangramento, mas foi muito pouco, tarde demais. A Nokia domina o mercado de feature phones, mas o futuro não é promissor. A competição com os xing-lings (cartas pra redação) é cruel. Não há como enfrentar smartphones já decentes com preços chineses. A Nokia ficaria descapitalizada para bater de frente com Apple, Google, Samsung. Para enfrentar essa gente a Nokia levaria anos e gastaria uma fortuna.

Felizmente a Microsoft tem ambos.

A Nokia deixará de existir no nome, mas o espírito da Nokia, renovado com a linha Lumia, recebendo elogios rasgados tanto em hardware quanto em software, continuará existindo. Lembre-se, a Land Rover é da Tata Motors indiana. O Mini Cooper, o mais inglês dos carros ingleses é da BMW. A Maserati é da FIAT. Você pode mudar de dono e manter o espírito original intocado.

A era da Microsoft embrace extend extinguish já passou. A Nokia não foi comprada para ser morta, não foi comprada para ser assimilada. Esqueça o Bill Gates of Borgdo Slashdot. A Nokia se unirá para fazer parte de algo maior. Pela primeira vez em anos terão um sistema operacional de 1ª linha, dinheiro a rodo e total controle sobre o ecossistema.

A Microsoft não comprou 90% do mercado de Windows Phone. A Microsoft não comprou fábricas e mão-de-obra, designers e engenheiros. Sim, dentro de um Nokia tem tudo isso, mas dentro de qualquer celular decente também tem. O que a Microsoft comprou dentro dos Nokias é um coração, uma alma, e isso não tem preço.

Me despeço da Nokia sabendo que ela não vai a lugar nenhum. Alguns aspectos dela mudarão, claro, voltará com outro nome, mas no fundo mesmo com uma cara diferente o coração será o mesmo e isso é o que importa.

A Nokia não morreu. Como todo fã de Doctor Who sabe, ela se regenerou.

 

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Via: Meiobit

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